dois danoninhos e um medo

Monday, October 30, 2006

nota

o tempo me engoliu, volto depois do feriado, caríssimos...

PS: Vcs sabiam que eu adoro comentários?

Friday, October 20, 2006

10. Do sonho do filme

— Venha, eu vou te mostrar o mar, Alice. É aqui perto, e dá pra ver um bom pedaço de horizonte. O segredo do mar na cidade está aqui, longe do andar 7 ½.

Copan, trigésimo andar, a chave da quitinete emprestada do porteiro “pra ver o apartamento que está para alugar”. 2046.

Da janela, espaço vazio com marcas de gordura e pó grudado, uma cidade e montanhas, e, muito longe, mas não tanto que não desse para divisar o brilho, ainda que de imaginação de bicho de horizontes demasiadamente verticais, um azul que refletia numa faixa mínima, antes de sumir na mistura céu-e-nuvem.

— Eu disse, você pode ver o mundo daqui. Se prestar bem atenção, pode ouvir alguns suspiros de quem está do outro lado do mar. Estamos na maior orelha do mundo. Mas não foi pra isso que eu te trouxe aqui...

Da mochila modernete saíram a garrafa e dois copinhos. Meninos... ah, meninos... Ela já vira a cena em algum filme, não? Não importava. Estavam ali, sozinhos no espaço vazio da casa de ninguém pela primeira vez.

— Eu trouxe você aqui pra resolver isso, esse desespero que eu sinto quando te vejo. E só tem um jeito de resolver: rápida e intensamente. Não reclame, pode chorar um pouco, mas não soluce nunca.

Beberam a pinga doce com sabor frutado se olhando. Era impressão ou uma música vinha do apartamento vizinho? In dreams, ela adorava In dreams. Só podia ser sonho mesmo, até a trilha tinha a breguice própria das coisas perfeitas e coloridas demais. O apartamento sujo, o homem desejado há encarnações, a vista pro mar imaginado no trigésimo andar. E aquele porteiro de dicção perfeita demais... sonho, claro que é sonho.

Virou-se na cama da realidade, ajeitou o corpo para continuar sonhando com ele. Pés e lençol, pés e lençol... pés e pés. E ele voltou, deitado atrás dela, nu, naquele mesmo apartamento vazio. O colchão que só poderia aparecer no sonho estava lá, cheiro de limpo (meu deus, até em sonhos eu sou assim, medo de gosmas passadas de desconhecidos?).

De colherzinha, nua, nuvens de tensão dissipada indo em direção ao horizonte que não existe. Eles já haviam transado. Perdi a melhor parte acordando por trinta segundos? Inacreditável!

Beijaram-se novamente, beijo velho conhecido, igual ao esperado, roçaram-se pernas e peitos e barrigas, misturaram-se as vontades.

Não soube como tudo aconteceu, não poderia não ter se perdido, olhado de longe, senão teria morrido ali, entre dor e gozo. O céu se fechava em nuvens pretas quando acabaram de se vestir e saíram correndo para não despertar estranhezas.

Ela acenou para o barco, que agora estava próximo demais pra ser verdade, como se o mar tivesse chegado à praça da República. Sentiu um arrepio de coisa boa, um pressentimento não tanto e jogou o pacotinho começado de Manteiga Aviação no lixo que acabara de inventar. Agora se lembrava exatamente de que filme tinha tirado aquele sonho...

In dreams I walk with you.
In dreams I talk to you.
In dreams youre mine.
All of the time were together
In dreams, in dreams.

Monday, October 09, 2006

9. Debaixo d'água

Como ela podia ter a boca tão macia? Alice só conseguia pensar na boca de Clara, sentir uma pele completamente diferente de qualquer outra coisa que já tivesse experimentado. Lisa, macia, quente. Era diferente. Diferente mesmo do beijo anterior, aquele apressado no banheiro. Este era infinitamente melhor, sem ninguém gritando na porta.

Mas a tensão sexual que tinham sentido naquele dia do colchão estava lá. Alice percebeu por um minuto que devoraria Clara muito rapidamente, se ela deixasse. E Clara não parecia nem um pouco preocupada com isso.

Seios? O que ela faria com seios daquele tamanho? Eram enormes e suaves e nossa... como eu vim parar aqui? Cervejas matadoras de superego? Sim, Alice beijava os seios de Clara. Clara passava a mão pelo cabelo de Alice. As duas tombaram um pouco e... sofá!

Pernas entrelaçadas, camisetas levantadas, sutiãs sem cumprir sua função... uma maçaroca de beijos e braços e seios e cabelos... Duas mulheres se beijando e esfregando. Absurdamente molhadas. Bom, bom, isso era excitante. Novo, com certeza. Queria ter bebido duas cervejas a menos.

Começaram a tirar as roupas. Uma da outra. Aos poucos. Estou com vergonha? Clara já viu isso um milhão de vezes. Mas ela corou um pouco também...Ok, o que eu faço agora? Ai, nunca fiz isso. Ok, relaxe, respire. Budalice, budalice, budalice...

As duas só de calcinhas no sofá. Calcinhas de verdade, simples, sexies. Era uma cena bacana, melhor do que imaginar aquelas lésbicas truckers dos infernos se esfregando... Ou aquelas meninas de unhas postiças de filme pornô. Engraçado que Alice gostou do que viu. Esteticamente. Sei lá, meninas normais dando beijos e curtindo. Um milhão de homens dariam muito dinheiro pra estar ali. Opa, dinheiro, lingeries, Victoria Secrets... Esquece, Alice, concentre-se na mina.

Quanto mais se esfregavam mais aumentava a tensão. Algo como uma tempestade de raios se formando em dia de muito calor. É certo, tinham liberado calor suficiente pra derreter asfaltos daqui ao Novo México, não, daqui ao sertão do Cariri. Ok, daqui ao México e ponto final, sem Novo... muito mais poético.

Clara beijava Alice com gosto. E Alice se sentia absurdamente feminina. Algo naquelas peles se tocando, naquele cheiro mais adocicado do que o normal. O cheiro, era isso. O cheiro das duas mulheres perfumadas e excitadas preenchia todo o espaço do apartamento, do bairro, da cidade. Como seria possível? Alice teve certeza de que todas as casas de São Paulo sentiram aquele cheiro de dama-da-noite um pouco diferente. Isso realmente embebedava. Mais do que o alcool do hálito e do que os cigarros disfarçado pela menta da pastilha.

Mas não poderiam ficar naquele transe de pele e boca a vida toda. Clara decidiu agir. Beijou os seios de Alice com mais força, sugou, e desceu. Sexy, sem dúvida, ela sabe o que fazer com a língua, mas quase a mesma coisa do que com os meninos. Fora o cheiro, a sensação era a mesma. E ela não poderia simplesmente subir um segundo antes da gozada e meter. Não, teria de ir até o fim. Não. Alice puxou Clara para perto de si, para um beijo mais demorado, e começou a tocá-la. Logo, quatro mãos e quatro pernas se confundiam entre quadris que balançavam levemente. Sim, e ela poderia olhar nos olhos de Clara, continuar sentindo os seios colados, sentir tudo. Um espelho. Um espelho e hmmmmmmm. Clara. Alice. Foram segundos de diferença. Bom, muito bom. Abraçar, beijar mais um pouco, tentar de novo.

E foram assim a noite toda. Pararam e tomaram banho juntas. Pararam e comeram umas pêras. Pararam e beberam caminhões de água, deixando escorrer pelo corpo e fazendo piadas sobre aqueles filmes de esfregação toscos. Riram juntas. Amigas. A risada de Clara pareceu realmente muito sensual em algum momento. Mais do que o corpo, mais do que o rosto. Só o som...

Depois tentaram de novo, com a boca mais uma vez. Alice só conseguia pensar na falta de pau. Se Clara tivesse um pau, teria sido completamente perfeito. Mas não tinha. Na última vez, quando a tensão já estava mais do que esgotada, ela percebeu isso. Poderia transar com meninas sempre, mas sentia falta do cacete do porra do pau. Seria inexperiência? Seria costume? Não sabia, mas tentaria — só pra saber e sentir aquela pele macia de novo, minham — com outra mulher em algum momento.

Dormiram abraçadas. Uma noite estranha, diferente. Como mergulhar num cheiro, se entorpecer e ficar vendo as formas se mexendo fora de si. Não pra sempre, Alice... mas poderia afundar nisso só mais um pouquinho...

...
Debaixo d'água por enquanto, sem sorriso, sem pranto, sem lamento,sem saber o quanto esse momento poderia durar, mas tinha que respirar. Debaixo d'água ficaria para sempre ficaria contente longe de toda gente para sempre no fundo do mar, mas tinha que respirar, todo dia...
Debaixo d'água protegido, salvo, fora de perigo, aliviado, sem perdãoe sem pecado, sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar, mas tinha que respirar...

Saturday, September 30, 2006

8. Clara volta

Com o Senhor Miau no colo e ouvindo músicas assustadoramente ruins enquanto zapeava a televisão no Mute e tentava, em vão, procurar alguma cena que encaixasse no ritmo, num videoclipe feito de tédio, Alice não pensava. Chegara a uma conclusão uns momentos antes: a iluminação é alcançada no torpor. Exercitar o torpor seria sua meta dali em diante. Quando o gato, o sofá, o controle remoto, a tevê, o som, a luz da sala, a Alice e a almofada virassem uma coisa só, feita da substância do Absoluto para os budistas, ela se deixaria ali, iluminada, pronta para virar uma buda qualquer. Budalice. Mas pra isso teria de ficar dias sem tomar banho, talvez meses, deixando unhas e cabelos crescerem, sem ir ao banheiro. Ai, Credo! Os budas que se danem! Usaria seus momentos de folguinha pra fazer algo mais útil do que alcançar a iluminação. Saquinhos gelados de chá de camomila nos olhos para as olheiras da noite anterior? Talvez um suquinho de laranja pra matar a ressaca de caipirinha de vinho com abacaxi pré-budice? Nope, nada de frutas, nada de ervas, talvez um bom analgésico. Aquele músculo que estava doendo realmente existia ou tinha sido inventado ontem? O sovaco poderia mesmo doer? Deus, transar com meninos de 20 anos estava fora de cogitação por uns 5 anos... meses... Isso, não transaria com nenhum outro moleque por cinco meses. Depois, pensaria no caso.

O sexo tinha sido bom e tal, o corpo do menino era legal, magro e firme, com alguma coisa de feminina. Um treino para a Clara. Clara, que tinha ligado ontem, que tinha voltado de Belo Horizonte, que ela encontraria em um par de horas naquele Fran’s Café maldito da Vila Madalena. Clara, que já tinha ido lá antes e sabia que a porra da luz sempre apagava no meio do xixi. E que você tinha de ficar se equilibrando pra não encostar na privada enquanto balançava os braços e segurava a bolsa até que a porra do sensor se tocasse que você estava ali, desequilibrada e macaqueando, numa cena feita para ser filmada pelo seu pior inimigo pra usar contra você. Porra, Alice, como você consegue divagar tanto?

Acho que estava gostando mais do torpor. Lembrar do sexo com o menino da noite anterior só a fez lembrar de por que tinha tomado tantas caipirinhas de vinho naquela festa péssima. De por que tinha tentado beber um pouquinho mais do que o normal. Daniel, o maldito cara pra casar e sua namorada inventada. O eternamente suspenso. E Clara. A beijoqueira de banheiro e quase melhor amiga, se não tivesse rolado nada. Será que Clara poderia ser apenas sua amiga por um tempo? Tempo suficiente para ela contar do Daniel e da menina que ela tinha beijado no banheiro da sua casa? Pra perguntar o que fazer. Nã!

Ok, monte a bicha Alice e esqueça de tudo. Girls just want to have fun mesmo... Isso é engraçado. Tentar parecer bonita para a melhor amiga é estranhíssimo. Ela já viu você fazendo xixi um par de vezes, já emprestou absorvente e, pior, já emprestou roupas para você parecer linda e seduzir um menino. Como usar o mesmo feitiço? Ai, cacete.

Ah, roupas normais resolvem. Nada de parecer montada. Roupa de dia-a-dia. Roupa velha e que ela conheça. Nada de tentar coisas novas. Nada de lingerie insinuante... Hahaha! Como se você tivesse a coleção inteira da Victoria’s Secret. Não, mas se você não sabe, eu tenho um HIDRATANTE da Victoria. A Vic é praticamente minha melhor amiga. Com quem você está discutindo, mulher? Outra vez com aquela sua inimiga imaginária riquíssima e que só usa Prada? A inimiga Odete Roitman fina e absoluta aos vinte? Ok, nada de Victoria. Clara reconheceria o cheiro de Victoria a quarteirões. Use Natura, seja pobre. Ai, como eu queria ser a Carrie do Sex in the City e conhecer meus sapatos pelo nome... Ou a Carrie estranha e fazer coisas de weird pipol... Enfim, roupitchas.

Depois de uma hora entre cigarros, uma cerveja e metade do guarda-roupa na cama, Alice conseguiu escolher sua roupa-com-cara-de-quem-não-escolheu perfeita. Clara não notaria nada.

Hora de ir. Droga, nem deu tempo de treinar meu “oi” com cara de quem só quer falar “oi”. Merda, um oi é só um oi e pronto. Relaxa. Na dúvida, respira.

Maldita, sentada com um daqueles cafés gelados com creme e coisinhas ali no Fran’s ela parecia completamente à vontade. Deve ter treinado, eu sei. Treinou. Só pode. A roupa com cara de quem tinha ido trabalhar. Quanto tempo ela levou pra se vestir? A-há! Sapatos novos! Eu sinto o cheiro de sapatos novos de longe! Você está mal intencionada, Clara...

— Erm... Oi... — merda, devia ter treinado, devia ter treinado. Isso vai ser esquisito pacas.
— Oi, bonita. Saudades! — Abraço? Ok, só abraço de amigas...
— Eu também. Tudo tranqüilo em BH? — quase sincero. Amo você, Alice.
— Sim, meu avô estava internado, mas não foi nada grave. Pedras no rim. Teve de bombardear.
— Ah, ótimo. E sua vó, sua tia Maria?
— Todos bem... E eu até tive tempo de dar umas voltinhas, rever umas pessoas. Foi legal.

Blá blá blá... Clara solta:

— Então, e aquele dia? O na sua casa?
— Não sei. E aquele dia, na minha casa? — ok, vamos jogar...
— Eu gostei muito. Pensei muito nisso. Achei legal que fosse assim, com você.
— Eu também gostei, Clara. Fiquei em pânico, depois gostei, aí fiquei num pânico maior e gostei mais. Não estava esperando aquilo... — Ok, está falado. Irreversível. Fodeu.
— Vamos embora daqui? Estou nervosa, preciso de álcool.
— Ai, que bom que você me entende...

Conta paga, algumas quadras passadas, boteco. Duas cervejas sobre amenidades. Duas cervejas sobre relacionamentos. Pronto!

— Clara, como a gente vai resolver isso? Quer dizer, você é amiga.
— Eu sei, isso me preocupa também, mas não tanto... A gente é amiga.
— Mas eu não saio beijando e me esfregando em amigas, não até semana passada... — risos.
— Eu também não, mas aconteceu. E se aconteceu, deveríamos pagar pra ver e parar de conversar sobre isso.
— Você tem toda razão. Ainda não entendi por que estamos aqui, em um boteco, pagando pela cerveja que tem de graça na minha casa, duas quadras daqui. —Pronto, Alice, você está ficando quase não-ridícula ao propor sexo pra sua amiga de infância disfarçando com cervejas em casa...
— Sua casa agora, então!

Clara e Alice caminharam um pouquinho, os corpos sendo atraídos para pequenos esbarrões como se a gravidade tivesse ficado louca, como se elas estivessem muito bêbadas — ok, elas estavam muito bêbadas — como se fosse claro que as coisas deveriam ser assim.

No apartamento, mais um constrangimento. Por que quando a gente muda de lugar o constrangimento se instaura como uma nuvem de incenso de centro de macumba? Por que a gente muda de lugar sabendo que isso vai quebrar o clima absurdamente? Talvez porque duas mulheres ainda não possam ficar se beijando no boteco da esquina sem provocar alguma reação, pau duro ou xingamento.

Ok, o playboy que passou de carro fez um comentário qualquer. Algo como “Huhuhu, gatinhas!” As duas riram, cúmplices. Mas agora a porta estava fechada, mais ninguém pra olhar. Até o Senhor Miau tinha se recolhido, prevendo que a noite não seria dele.

Alice paralizou. Não se mexeria. Não respiraria. Torpor, torpor. Lembre da tevê e dos videoclipes inventados. Relaxe, respire... beije? Sim, Clara já estava ali, a boca colada na sua. O gelo que ela sentiu na barriga só podia significar uma coisa: algo tinha começado.

*** Continua ***

Wednesday, September 20, 2006

7. Enjoy the silence


Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial


Todos têm uma listinha, certo? Por mais que não seja uma listinha, assim, física, de papel e caneta, ou mesmo uma coisa consciente, todos têm uma listinha de pessoas com quem transariam depois que esse ou aquele namoro acabasse, em um momento de bobeira, num porre quase não-proposital. A listinha de pessoas passa por aquelas com que você tem certeza absoluta de mentira que um namoro não engataria, que a amizade se partiria, que seria péssimo depois. Mas elas estão lá, na listinha mental, na listinha que você não contaria nem pra melhor amiga. Ou contaria, mas tão bêbada quanto ela e depois de ela confessar que transaria com o seu ex-namorado, se ele não fosse o seu ex-namorado e ela não fosse a sua melhor amiga. Ou seja, ela mediu bem o corpo dele e o colocou na listinha dela... Enfim, Alice também tinha uma listinha. Uma de “minham, sim”, “minham, não” e “ai, credo!” O menino da expedição estava num “ai, credo, minham”. É, um nojinho bom. Às vezes isso acontece.

Mas o caso não é esse. Naquele dia de Tori Amos em looping, ignorando solenemente qualquer Depeche Mode animadinho, ela estava lá, deitada de vestidinho de alcinha no sofá, pensando na Clara e alternando seu pensamento agora para o André. Ai, o André. Na verdade, em algum momento da sua vida, Alice chegou a pensar que estava fadada a encontrar um André e casar-se com ele. Dois de seus bons namoradinhos de um mês na adolescência se chamavam André. E tinha aquele outro, the André, quando pela primeira vez ela sacou que um menino estava realmente excitado com ela. Aquele com quem ela transaria aos 14, se isso não tivesse tão distante da cabeça dela aos 14 quanto usar meias Kendall e operar varizes estava agora. Uma coisa que ela faria, mas para a qual ainda não estava preparada. E que tinha muito medo de doer. Como as Kendall. Como operar varizes.

Modorrenta era a palavra certa para aquela tarde. O tempo feio, quente e opressivo, sem luz. E ela lá, pensando no André, num André qualquer que a salvasse. Ou que pelo menos a comesse direito. Ok, ela não queria ser salva. Bem comida era melhor. Era isso ou enfiar a porra das meias kendall, um pegnoir, chinelos de vó e sentar ouvindo Sam Cooke e Nat King Cole em espanhol até a morte. “Cachito, Cachito, Cachito mío. Pedazo de cielo que Dios me dio.”

Mas estavam lá, Alice e Tori Amos, “words like violence, break the silence. Come crashing in, into my little world.” Telefone. Opa, isso é quase melhor do que se sentir miserável a tarde toda e morrer com a Mariane Faithfull cantando Gloomy Sunday. Ok, bem menos fino também. Maldito telefone.

— Alice? Daniel...
— Daniel?
— Daniel Brassens… da faculdade…
— Nossa, quanto tempo, moço...
— Pois é. Hoje estava ouvindo a trilha do Commitments e pensando em você. Você gostava de soul, não? Lembro de você animada com um show do James Brown há milênios.
— Cacete, Daniel, isso faz muito tempo! Como você lembra?
— Ah, sei lá. Só lembrei de você por conta do soul... Nada demais.
— E aí, o que você está fazendo?
— Agora?
— Não, da vida... mas serve agora também. Estou numa tarde modorrenta, me afundando em Tori Amos e pastilhas Tic Tac de laranja... Já estava até pensando em apelar pra algo mais hard, como Cebolitos e Doris Day.
— Não! Parem essa mulher! Nada de Doris Day hoje, senhorita. Vamos tomar um café, pegar um cinema, qualquer coisa...
— Beleza. Me dá uma hora?
— Mulheres...
— Sempre mariquinhas.

Não, não ia fazer nada com o Daniel. Ele até poderia ter entrado na lista uns anos antes, ele até poderia ter entrado na lista hoje. Mas o Daniel é pra casar e ter filhos. Nada de casos com meninos pra casar e ter filhos. Ele é mais perigoso do que Cachito...

E foram lá. O maldito continuava engraçado, irriquieto, trocando de voz pra fazer piadas o tempo todo. Engraçada a intimidade absoluta. Não se falavam há o que, dois anos? Ok, mais um indo na mesma direção. Ele estava namorando? Não, Alice, por que você quer saber isso? Não pergunte, não pergunte... Estava. Ai, cacete. Ai cacete o cacete. Esse é o melhor dos mundos. Menino fiel e com namorada. Nenhum perigo. Fora o de você se apaixonar perdidamente e ficar afundando a cabeça no travesseiro ouvindo Roy Orbison, ou pior, aquela versão do Almodovar ainda mais dramática... Lloraaando, por tu amor...

Mas ele estava namorando e vocês são apenas amigos. Bons amigos. Amigos imediatos. Ok, pense em outra coisa. Conte do André, seu namorado. Que André? Invente um André logo, porra. Um com coisas tão específicas quanto tatuagens de arame farpado nos braços.

— Pois é, ele tem tatuagens de arame farpado nos dois braços, mas é um fofo...

Colou? Acho que sim...

— Sabe como é... coisa de colégio. E o pai dele é um Hell Angel de 50 e poucos, rico e barrigudo que assinou a autorização para a tatuagem do moleque bêbado.

Como você pôde inventar isso tão rápido, mulher? Você deveria escrever novelas ruins. Vai, continue que está divertido.

— E a mãe parece que saiu de um filme de terror. Ela aplicou botox e fica sorrindo e servindo brioches o tempo todo, como se estivesse possuída por alguma coisa e tentasse disfarçar.

Wow. I like to thank the Academy...

— Nossa, Alice, você está inventando isso. Parece roteiro de filme “feito para a televisão”.
— Pois, é, né? Há há há. Mas o irmão dele é normal. Até fez Administração. E eles tem um pequinês. Nos filmes ruins ninguém tem pequinês.
— É, só minha tia Emília ainda tem coragem de ter um pequinês. É o cachorro mais cafona que eu conheço. Aliás, cafona também é uma palavra cafona.

Ok, esquece. Você se salvou por um triz. Não fale mais nada sobre o André que não existe...

— E a sua namorada? Ela não tem tatuagens absurdas, tem?
— Não, moça normal. Fonoaudióloga. Tem uma coisa mais normal do que fonoaudiólogas?

Por um segundo Alice achou que ele também tinha inventado a fonoaudióloga. É tão óbvio. Eu também inventaria uma. Por que ele não tentou Médica Ortomolecular? Muuuito melhor. Aliás, eu poderia dizer que o André tem tatuagens de arame farpado, mas é médico. Ortomolecular. E até acrescento que parece uma coisa chata, porque lembra Ortografia, mas é só um treco que mexe com vitaminas, do tipo: “Ah, dona Maricota, a senhora precisa melhorar o seu complexo B12”. Não, nada mais de seres imaginários. Ele que se atrapalhe com sua própria fonoaudióloga. Vamos, Alice. Enjoy the Silence. Feche essa sua enorme boca. Nem que seja com o sapato. Argh. Nojo.

— Algo errado com o seu chá? Você fez uma cara...
— Nã, nada. Estava só pensando em sapatos... tem uns péssimos por aqui... hehe.

Mas ele não ia deixar tudo acabar tão fácil. Ele obviamente ia falar sobre aquele livro incrível que ela queria comprar mas estava sem grana, sobre o filme antigo que saiu em uma caixa nova, sobre como tinha sido ir pra Galápagos. Galápagos? Não, morra! Como pode? Galápagos é sacanagem. Ela queria muito ir pra Galápagos pra ver bichos que não existem de verdade, só na imaginação do porra do Darwin... Galápagos teria sido um chute no saco, se eu tivesse um. Pronto, agora faça eu me apaixonar... Vai, me faça lembrar de como eu ficava enlevada toda vez que te via! Fale de algo muito sensacional, tipo, tipo... O que ele poderia falar que fosse tão sensacional?

— Enfim, mas Galápagos foi no ano passado, quando sobraram granas. Agora estou pobre, pobre. Continuo o bom e velho Daniel pobrão indo à feira pra tomar café da manhã com pedaços de fruta que os feirantes oferecem... Sabe? Aquelas maçãs e pêras e cerejas que eles dão pra nos convencer? Nunca vai existir uma jabuticaba que faça ploc na boca como a da feira. A oferecida. É perfeita porque é oferecida. Como nessas coisas bizarras de bonecos japoneses de um olho só e Makineko-nekos, os gatinhos... É meio místico.

Não, ele é perfeito! Gosta de plocs na boca e não sabe falar o nome dos porras dos Meticos-ticos. Ai... fodeu.

— Ai, Alice, já são dez e meia. Cacete! Ver o tempo passar assim sem cerveja é coisa pra poucos, menina! Bendito soul! Mas preciso buscar a Sofia no hospital.

E a porra da fonoaudióloga inventada tem um nome desse? Óbvio. Eu não inventaria um Ari... Ridículo. Obviamente inventada... Ou perfeita. Ou feliz, a desgraçada. Maldita, deve ser legal. Pior de tudo é que tenho certeza de que, se não for inventada, é legal. Ou é inventada e legal, o que piora muito as coisas, porque obviamente não tem bigode de groselha, calcinha meio velha nem nada que bailarinas não têm. E ainda tem um namorado. O meu namorado. Meu possível quase amor da minha vida que eu nem conheço direito, na verdade. Ok, vamos pra casa.

Mais piadas no carro. Ao fechar a porta do apartamento, uma confusão de quem queria chamar e beijar, de quem estava feliz por ver o amigo que seria amigo pra sempre, um certo draminha se formando. Esqueça a Tori.

Every time I see you falling
I get down on my knees and pray
I´m waiting for the final moment
You´ll say the words that I can´t say…

Preciso dar um jeito de ganhar um Mentico-teco e fazer um pedido. Enquanto isso... Bem, a Clara disse que voltava quando?

Thursday, September 14, 2006

6. Os 15 dias

Quinze dias de plano suspenso? O que é isso, Alice? Tudo bem, teve a TPM e a menstruação. Teve o momento de se sentir uma shreka, teve o inchaço, os peitos doloridos, a barriga imensa, a cólica... Mas já tinha passado. E os últimos três, quatro dias? Nada. Nada versus nada. Ela realmente precisava dar um jeito nisso. Como ser uma vaca sem sexo? Que coisa mais ridícula. Só lembrava da frase da tia Helena, mãe da Carminha, no seu aniversário de 18 anos:

- Agora que vc é maior, vai e dá. Dá e nao pensa na volta, minha filha.

A tia Helena sabe tudo. A tia Helena virou gay aos 50. A tia Helena estava realmente pensando em fazer um piercing na língua? Benditos anos 1960!

Ok. Tem a festa do Fernando no próximo sábado. Festa meio hippie suja, é certo, com muito Xorxe Bem Xor e o Tim Maia com aquela voz de tumba. Ei, você gosta do Tim Maia, Alice! Ok, eu gosto dele, mas nao de Sullivan e Massadas, não das chorosas...

Não, não podemos esperar até a festa do Fê. A coisa tem de ser hoje, tem de ser agora. No escritório? Não. Amigos da faculdade? Hmmm... Pode ser. Dois amigos da faculdade e uma chinchila? Pare de pensar bobagens, mulher, se concentre, isso é sério.

Certo, vamos de velha guarda. Vamos de ex-namorado! Nãaaaaao. Tudo menos isso! Nada pior do que fazer sexo com alguém que você já conhece pra jogar todas as mágoas na cama. Nada pior do que querer voltar, qualquer dos dois, depois. E você sempre quer voltar, Alice. Você tem aquele estranho mecanismo de apagar todos os defeitos de uma pessoa depois de meia hora de sexo bem-feito.

Não tem jeito, tem de ser. Se concentre e marque uma sessão de vídeo na sua casa. Algo de terror, algo para rir. Uns amigos, uns ex-namorados amigos, um filminho. Depois você pode beber bastante e esquecer de tudo no dia seguinte. Ou pode fazer de conta que não quer sexo e fingir que a reunião é só pra conversar. Ou pode só conversar mesmo... Ah, vamos lá. Não é difícil juntar quatro gatos pingados.

Mia, Tom, Pedro, Jota — ai, não, Jota não — e Clara. As opções estão restritas. De novo. Mia, Tom, Pedro, Clara, Paulinho e Gustavo. Tudo está bem. Aqui nós temos uma opção bem clara: Paulinho. Caso antigo, separado, sem amigos... hm... pode dar certo.

Ok, o Gus não pôde vir. No mais, uma sessão dupla de Massacre da Serra Elétrica e Colheita Maldita nunca fez mal a ninguém. Esfihas de 50 cents. Uma caixa de cerveja oferecida pelo Pedro. Tudo perfeito.

Conversê na cozinha, todos declarando saudades de todo e aquela menina. Maldita! Por que o Paulinho não disse que ia trazer a namorada baby e limítrofe? Por que me aparece com essa mina de sapatos Dakota e chapinha na minha casa? Ah, não dá! E ela ainda usa um daqueles pingentes com menininhos e menininhas. Tem filho? Sim, o Lucas. Ele e o Papá se dão super bem! Papá? Eu já dei pra um cara chamado Papá e que come uma mina com um filho e sapatos Dakota e pingentinho de ouro. Medo, medo medo!
Os filmes tão divertidos quanto poderiam ser. Duas cervejas na lata e... Um plano indo por água abaixo... Você é uma estúpida, Alice. Deveria ter saído pra balada, ter caçado um cara de camisa xadrez... Qualquer coisa é melhor do que essa menina sem nome nem noção falando que o pai era um fumante “invertebrado”. E o Paulinho ainda rindo besta pra ela... aiai.

Mais uma cerveja. Você quer, Clara? Vou com você. Meu, que mina sem noção, amiga? Não sou paga pra isso. Ei, relaxa.

Foi impressão minha? Os nossos olhos pararam aquele segundo a mais? Ai, não... Pararam? Se não pararam, então por que eu mudei de posição no sofá? E por que ela se aconchegou um pouco mais. A Clara? Não, viagem... Certo, agora você está mexendo no cabelo dela. Ai, pare com isso. Alice, isso é normal. É a coisa mais normal do mundo mexer no cabelo da amiga.

— Alice, você tem um blusa? Estou com frio...
— Eu também estou. Vou trazer um edredom pra sala.

Deveria ter trazido uma blusa, não um edredom. Um blusa seria o certo. Uma blusa. Qualquer blusa.

— Mais um filme, gente?
— Alice, ja são quase duas... ronronou o Pedro do chão.
Iluminado?
— Ah, sacanagem. Como vou dizer não para o redrum?

Paulinho e vaca continuam aqui. Por que não vão embora, curtir um motel antes do pirralho acordar? Ah, vai saber.

Ajeitadas as posições, Clara e Alice ficaram com o colchão no chão. Os meninos no sofá, a Mia dormindo no quarto — tudo bem, ela falou que ia dormir aqui mesmo — e o casalzinho péssimo se espremendo na poltrona. Jura que eles não fazem sexo?

E agora estavam lá, as duas, embaixo do edredom, luz apagada. Clara aconchegou o corpo ainda mais, fazendo colherzinha. Alice, meio já-já de cerveja, ficou na frente, deixando a amiga fazer cafuné. As duas estavam ali, movimentos mínimos. Tentando controlar a respiração pra ninguém notar nada. Notar o quê? Acorda, Alice, tem alguma coisa acontecendo. E você não precisa nem esperar o machado do Jack pra saber...

Clara apertou Alice um pouco mais, colocou sua coxa no meio das dela. Enconstou os seios. Bom, um formigamento lá. Um suspiro engolido.

Todos prestando atenção no filme, menos a limítrofe, que já dormia. O Paulinho estava olhando pra ela? Sim, o desgraçado estava encarando. Ótimo, quer olhar? Que olhe! Será que ele percebeu o que estava acontecendo? Não, é só canalha mesmo. Filho da puta.

Mas a sensação da pele lisinha de Clara era boa. Os seios roçando devagar nas suas costas e aquela mão que já começava a passear... Ai, ela não está fazendo isso... Sim, está. E o Paulinho encarando firme.

Clara tinha colocado a mão entre as pernas de Alice, levantando um pouco a saia, mas mantendo a calcinha no lugar. Alice podia perceber que estava molhada a ponto de encharcar a calcinha e talvez mais. Clara respirava bem devagar no seu pescoço. Ela deve ter sentido só um roçar de lábios, leve, pela sua nuca. A coisa estava esquentando. Talvez se eu virar assim... Ótimo, agora o edredom cobria as duas. O escuro do canto do colchão encobria tudo. Nada de movimentos bruscos. Só duas mãos passeando levemente uma pelo corpo da outra. Tensão total.

A luz acendeu. Tinham ficado tanto tempo naquela bolinação quase tântrica? Sim, Jack estava morto no labirinto. A feia e o louquinho fugiam no carro.

Todos levantaram, inclusive a limítrofe. Até que ela ficava bonitinha sonada. Clara estava lá, luz acesa. Você quer ficar, Alice perguntou. Não, a Mia está aí, lembra? O que foi isso?, ela falou só mexendo os lábios. Clara gargalhou.

— Meninos, um minuto. Preciso ir ao banheiro com a Alice pegar uma coisa que só ela pode me emprestar, se é que vocês entendem...
— Racha sanguinolenta é uó, tascou o Tom.

As duas foram juntas. Ao fechar a porta, agarraram-se como nunca poderia passar pela cabeça de Alice. Um beijo. Um único beijo de uns dois, três, quatros, muitos minutos. Ninguém ali gozou, mas aquilo era até melhor do que sexo de até o fim.

— Clara, estamos indo. Venha, sua racha evil dead!

Foi só. Todos foram. O abraço do Paulinho foi mais demorado, o que deixou Alice com um certo nojinho. A mina do pingente agradeceu a noite. Clara só piscou e disse.

— Amanhã vou pra Belo Horizonte. A gente se fala quando eu voltar.

Thursday, August 31, 2006

5. Mr. Perfect Guy

Rui é o cara mais perfeito que Alice já conheceu. Cabelo preto, corpo magro e definido (ai, aquele futebol da firrma) e um certo ar de quem sabe exatamente o que fazer, sorriso hipnótico e olhos de huskie siberiano com um brilhinho inventado de tão perfeito. E ele ainda é fofo, bonzinho, sexy, gosta de comida japonesa e de Cortázar e ainda tem um poema do Pessoa tatuado na perna. Deus! Isso, ele é um Deus! Os gregos não são nada perto do Rui.

Alice sonhava meio não sonhando em ir pra cama com esse cara desde o primeiro e “aí, tudo bem?”. Mas ela não tinha ilusões. Caras assim encontram meninas perfeitas, daquelas que parecem nunca precisar tirar a sobrancelha, dar uma engolidinha na barriga antes de se olhar no espelho a última vez ou ou chorar no chuveiro querendo morrer por sempre se lembrar do A-ha. É, ele só sai com cheerleaders da Sessão da Tarde. Não, definitivamente Mr. Perfect Guy não sairia com uma ruiva falsa, que não vai à academia há pelo menos dois anos e se afunda em cigarros e papinha de nenê toda madrugada solitária. Pior, que ouve toda noite o mesmo CD, cumpre sempre o mesmo ritual: começa balançando a cabeça de uma maneira desarticulada em “No Fun”, dá uma dançadinha em “Nightclubbing” se achando o máximo e chora segundos antes da Katie Pierson se debulhar em Down on the street... Those men are all the same… I need a looooove…Not gaaames… Not gaaaaaaaames. Rude and Nude. Maldito, ele tem o corpo do Iggy Pop com uma cabeça de... de... ah, sei lá. Uma cabeça perfeita. Perfeita demais. Ponto.

Mas lá estava ela. Ele tinha vindo falar algo como. Nós precisamos sair pra balada juntos. Que tal sexta? Sexta? Ótimo! E agora estava ela lá, deitada na cama, esperando dar um tempo pro banho e pra sessão de “esse sutiã faz meus peitos parecerem maiores, mas dá a impressão que eu quero dar. E eu não quero dar. Ok, eu quero, mas não quero que ele perceba que eu quero dar. Um mais natural, talvez. Não, não tão natural a ponto de parecer bege! Não, bege não!”

Só que a ansiedade estava no pico. E como diria seu Hiroshi do restaurante japonês da travessinha da Angélica, com toda a sabedoria possível no meio de um grelhado japonês fantástico: “Menina, coca-cora e esturesse. Tudo veneno-né?” Isso, nada de ansiedade, nada de esturesse agora. O esquema era o seguinte: para sair com o cara Perfeito, você precisa controlar a situação. Primeiro, pensar que ele tem um pau ínfimo, do tipo que não serve pra nada e olhá-lo com um certo ar de superioridade, do tipo “mas só isso?”, depois, usar o vibrador. É, o vibrador tem um efeito mágico sobre as pessoas. Se você já sair gozada, sua ansiedade estará no pé. E sua pele, bem, nenhuma base tem o efeito revigorante de um vibrador...

Plano fechado. Depois, sua retardada, você só está a fim de sexo. Você tirou essa fase da sua vida para fazer sexo, só sexo, nada de discussões cabeça, nada de olhares derretidos. Esqueça!

Deitada na cama, trocava as pilhas do seu brinquedinho com alguém que acaba de descobrir o segredo do emagrecimento sem dor. Exultante.

Bem, por onde começamos? Lawrence? Nope. Esse relacionamento já está desgastado. Hm. Tem aquelas imagenzinhas do Eric Stanton... Hm... Chicotinhos, dominatrix, hahaha, eu adoraria dar umas palmadas na bunda do Rui. Ok, minha mesinha de centro, sofra! A cena do Laranja Mecânica com aquele macacão vermelho de lycra? Não, muito ridículo. Acho que devemos apelar pra... Isso! Sexo selvagem com o Angeli! Ah, assim, vai... Minham. Sem esturesse. Só o Angeli e eu numa cama, não, numa praia, não, numa o quê? Ok, só eu e o Angeli em um quartinho de hotel vagabundo no centro. Ele por cima, ele por baixo, ele em pé atrás de mim... ai, isso, ele em pé por trás falando bobagens... cacete, só mais um pouquinho, Angeli! Isso. Ah! Lindo, perfeito. Tenho de usar o Angeli mais vezes...

Nossa, e o Angeli é muito melhor amante do que aquele merda do Rui com aquele pau pequeno e aquele estranho gosto por minas perfeitas. Nossa, esse cara é muito chato! Ele tatua Pessoa pra esquecer o pau pequeno e ainda vem pra cima de mim achando que eu vou cair nessa? Apaputa! Quer saber, foda-se. E que ódio de gente perfeita. E que ódio de meninos cheirosos e inteligentes. Caras assim quebram o seu coração. Nada disso. Ele que fique com o seu cabelo moderninho, seu corpinho de horas na academia, seu pessoinha de quinta. Eu quero é o Angeli! Quero agora, quero de novo!
— Alô, Rui? Não vai dar pra sair com você hoje. Surgiu um compromisso. Ok, eu também sinto muito. Mas às vezes a vida prega peças na gente. Outra hora a gente sai. Agora eu preciso só resolver essa coisinha...