Quinze dias de plano suspenso? O que é isso, Alice? Tudo bem, teve a TPM e a menstruação. Teve o momento de se sentir uma shreka, teve o inchaço, os peitos doloridos, a barriga imensa, a cólica... Mas já tinha passado. E os últimos três, quatro dias? Nada. Nada versus nada. Ela realmente precisava dar um jeito nisso. Como ser uma vaca sem sexo? Que coisa mais ridícula. Só lembrava da frase da tia Helena, mãe da Carminha, no seu aniversário de 18 anos:
- Agora que vc é maior, vai e dá. Dá e nao pensa na volta, minha filha.
A tia Helena sabe tudo. A tia Helena virou gay aos 50. A tia Helena estava realmente pensando em fazer um piercing na língua? Benditos anos 1960!
Ok. Tem a festa do Fernando no próximo sábado. Festa meio hippie suja, é certo, com muito Xorxe Bem Xor e o Tim Maia com aquela voz de tumba. Ei, você gosta do Tim Maia, Alice! Ok, eu gosto dele, mas nao de Sullivan e Massadas, não das chorosas...
Não, não podemos esperar até a festa do Fê. A coisa tem de ser hoje, tem de ser agora. No escritório? Não. Amigos da faculdade? Hmmm... Pode ser. Dois amigos da faculdade e uma chinchila? Pare de pensar bobagens, mulher, se concentre, isso é sério.
Certo, vamos de velha guarda. Vamos de ex-namorado! Nãaaaaao. Tudo menos isso! Nada pior do que fazer sexo com alguém que você já conhece pra jogar todas as mágoas na cama. Nada pior do que querer voltar, qualquer dos dois, depois. E você sempre quer voltar, Alice. Você tem aquele estranho mecanismo de apagar todos os defeitos de uma pessoa depois de meia hora de sexo bem-feito.
Não tem jeito, tem de ser. Se concentre e marque uma sessão de vídeo na sua casa. Algo de terror, algo para rir. Uns amigos, uns ex-namorados amigos, um filminho. Depois você pode beber bastante e esquecer de tudo no dia seguinte. Ou pode fazer de conta que não quer sexo e fingir que a reunião é só pra conversar. Ou pode só conversar mesmo... Ah, vamos lá. Não é difícil juntar quatro gatos pingados.
Mia, Tom, Pedro, Jota — ai, não, Jota não — e Clara. As opções estão restritas. De novo. Mia, Tom, Pedro, Clara, Paulinho e Gustavo. Tudo está bem. Aqui nós temos uma opção bem clara: Paulinho. Caso antigo, separado, sem amigos... hm... pode dar certo.
Ok, o Gus não pôde vir. No mais, uma sessão dupla de Massacre da Serra Elétrica e Colheita Maldita nunca fez mal a ninguém. Esfihas de 50 cents. Uma caixa de cerveja oferecida pelo Pedro. Tudo perfeito.
Conversê na cozinha, todos declarando saudades de todo e aquela menina. Maldita! Por que o Paulinho não disse que ia trazer a namorada baby e limítrofe? Por que me aparece com essa mina de sapatos Dakota e chapinha na minha casa? Ah, não dá! E ela ainda usa um daqueles pingentes com menininhos e menininhas. Tem filho? Sim, o Lucas. Ele e o Papá se dão super bem! Papá? Eu já dei pra um cara chamado Papá e que come uma mina com um filho e sapatos Dakota e pingentinho de ouro. Medo, medo medo!
Os filmes tão divertidos quanto poderiam ser. Duas cervejas na lata e... Um plano indo por água abaixo... Você é uma estúpida, Alice. Deveria ter saído pra balada, ter caçado um cara de camisa xadrez... Qualquer coisa é melhor do que essa menina sem nome nem noção falando que o pai era um fumante “invertebrado”. E o Paulinho ainda rindo besta pra ela... aiai.
Mais uma cerveja. Você quer, Clara? Vou com você. Meu, que mina sem noção, amiga? Não sou paga pra isso. Ei, relaxa.
Foi impressão minha? Os nossos olhos pararam aquele segundo a mais? Ai, não... Pararam? Se não pararam, então por que eu mudei de posição no sofá? E por que ela se aconchegou um pouco mais. A Clara? Não, viagem... Certo, agora você está mexendo no cabelo dela. Ai, pare com isso. Alice, isso é normal. É a coisa mais normal do mundo mexer no cabelo da amiga.
— Alice, você tem um blusa? Estou com frio...
— Eu também estou. Vou trazer um edredom pra sala.
Deveria ter trazido uma blusa, não um edredom. Um blusa seria o certo. Uma blusa. Qualquer blusa.
— Mais um filme, gente?
— Alice, ja são quase duas... ronronou o Pedro do chão.
—
Iluminado?
— Ah, sacanagem. Como vou dizer não para o redrum?
Paulinho e vaca continuam aqui. Por que não vão embora, curtir um motel antes do pirralho acordar? Ah, vai saber.
Ajeitadas as posições, Clara e Alice ficaram com o colchão no chão. Os meninos no sofá, a Mia dormindo no quarto — tudo bem, ela falou que ia dormir aqui mesmo — e o casalzinho péssimo se espremendo na poltrona. Jura que eles não fazem sexo?
E agora estavam lá, as duas, embaixo do edredom, luz apagada. Clara aconchegou o corpo ainda mais, fazendo colherzinha. Alice, meio já-já de cerveja, ficou na frente, deixando a amiga fazer cafuné. As duas estavam ali, movimentos mínimos. Tentando controlar a respiração pra ninguém notar nada. Notar o quê? Acorda, Alice, tem alguma coisa acontecendo. E você não precisa nem esperar o machado do Jack pra saber...
Clara apertou Alice um pouco mais, colocou sua coxa no meio das dela. Enconstou os seios. Bom, um formigamento lá. Um suspiro engolido.
Todos prestando atenção no filme, menos a limítrofe, que já dormia. O Paulinho estava olhando pra ela? Sim, o desgraçado estava encarando. Ótimo, quer olhar? Que olhe! Será que ele percebeu o que estava acontecendo? Não, é só canalha mesmo. Filho da puta.
Mas a sensação da pele lisinha de Clara era boa. Os seios roçando devagar nas suas costas e aquela mão que já começava a passear... Ai, ela não está fazendo isso... Sim, está. E o Paulinho encarando firme.
Clara tinha colocado a mão entre as pernas de Alice, levantando um pouco a saia, mas mantendo a calcinha no lugar. Alice podia perceber que estava molhada a ponto de encharcar a calcinha e talvez mais. Clara respirava bem devagar no seu pescoço. Ela deve ter sentido só um roçar de lábios, leve, pela sua nuca. A coisa estava esquentando. Talvez se eu virar assim... Ótimo, agora o edredom cobria as duas. O escuro do canto do colchão encobria tudo. Nada de movimentos bruscos. Só duas mãos passeando levemente uma pelo corpo da outra. Tensão total.
A luz acendeu. Tinham ficado tanto tempo naquela bolinação quase tântrica? Sim, Jack estava morto no labirinto. A feia e o louquinho fugiam no carro.
Todos levantaram, inclusive a limítrofe. Até que ela ficava bonitinha sonada. Clara estava lá, luz acesa. Você quer ficar, Alice perguntou. Não, a Mia está aí, lembra? O que foi isso?, ela falou só mexendo os lábios. Clara gargalhou.
— Meninos, um minuto. Preciso ir ao banheiro com a Alice pegar uma coisa que só ela pode me emprestar, se é que vocês entendem...
— Racha sanguinolenta é uó, tascou o Tom.
As duas foram juntas. Ao fechar a porta, agarraram-se como nunca poderia passar pela cabeça de Alice. Um beijo. Um único beijo de uns dois, três, quatros, muitos minutos. Ninguém ali gozou, mas aquilo era até melhor do que sexo de até o fim.
— Clara, estamos indo. Venha, sua racha
evil dead!
Foi só. Todos foram. O abraço do Paulinho foi mais demorado, o que deixou Alice com um certo nojinho. A mina do pingente agradeceu a noite. Clara só piscou e disse.
— Amanhã vou pra Belo Horizonte. A gente se fala quando eu voltar.