dois danoninhos e um medo

Thursday, August 31, 2006

5. Mr. Perfect Guy

Rui é o cara mais perfeito que Alice já conheceu. Cabelo preto, corpo magro e definido (ai, aquele futebol da firrma) e um certo ar de quem sabe exatamente o que fazer, sorriso hipnótico e olhos de huskie siberiano com um brilhinho inventado de tão perfeito. E ele ainda é fofo, bonzinho, sexy, gosta de comida japonesa e de Cortázar e ainda tem um poema do Pessoa tatuado na perna. Deus! Isso, ele é um Deus! Os gregos não são nada perto do Rui.

Alice sonhava meio não sonhando em ir pra cama com esse cara desde o primeiro e “aí, tudo bem?”. Mas ela não tinha ilusões. Caras assim encontram meninas perfeitas, daquelas que parecem nunca precisar tirar a sobrancelha, dar uma engolidinha na barriga antes de se olhar no espelho a última vez ou ou chorar no chuveiro querendo morrer por sempre se lembrar do A-ha. É, ele só sai com cheerleaders da Sessão da Tarde. Não, definitivamente Mr. Perfect Guy não sairia com uma ruiva falsa, que não vai à academia há pelo menos dois anos e se afunda em cigarros e papinha de nenê toda madrugada solitária. Pior, que ouve toda noite o mesmo CD, cumpre sempre o mesmo ritual: começa balançando a cabeça de uma maneira desarticulada em “No Fun”, dá uma dançadinha em “Nightclubbing” se achando o máximo e chora segundos antes da Katie Pierson se debulhar em Down on the street... Those men are all the same… I need a looooove…Not gaaames… Not gaaaaaaaames. Rude and Nude. Maldito, ele tem o corpo do Iggy Pop com uma cabeça de... de... ah, sei lá. Uma cabeça perfeita. Perfeita demais. Ponto.

Mas lá estava ela. Ele tinha vindo falar algo como. Nós precisamos sair pra balada juntos. Que tal sexta? Sexta? Ótimo! E agora estava ela lá, deitada na cama, esperando dar um tempo pro banho e pra sessão de “esse sutiã faz meus peitos parecerem maiores, mas dá a impressão que eu quero dar. E eu não quero dar. Ok, eu quero, mas não quero que ele perceba que eu quero dar. Um mais natural, talvez. Não, não tão natural a ponto de parecer bege! Não, bege não!”

Só que a ansiedade estava no pico. E como diria seu Hiroshi do restaurante japonês da travessinha da Angélica, com toda a sabedoria possível no meio de um grelhado japonês fantástico: “Menina, coca-cora e esturesse. Tudo veneno-né?” Isso, nada de ansiedade, nada de esturesse agora. O esquema era o seguinte: para sair com o cara Perfeito, você precisa controlar a situação. Primeiro, pensar que ele tem um pau ínfimo, do tipo que não serve pra nada e olhá-lo com um certo ar de superioridade, do tipo “mas só isso?”, depois, usar o vibrador. É, o vibrador tem um efeito mágico sobre as pessoas. Se você já sair gozada, sua ansiedade estará no pé. E sua pele, bem, nenhuma base tem o efeito revigorante de um vibrador...

Plano fechado. Depois, sua retardada, você só está a fim de sexo. Você tirou essa fase da sua vida para fazer sexo, só sexo, nada de discussões cabeça, nada de olhares derretidos. Esqueça!

Deitada na cama, trocava as pilhas do seu brinquedinho com alguém que acaba de descobrir o segredo do emagrecimento sem dor. Exultante.

Bem, por onde começamos? Lawrence? Nope. Esse relacionamento já está desgastado. Hm. Tem aquelas imagenzinhas do Eric Stanton... Hm... Chicotinhos, dominatrix, hahaha, eu adoraria dar umas palmadas na bunda do Rui. Ok, minha mesinha de centro, sofra! A cena do Laranja Mecânica com aquele macacão vermelho de lycra? Não, muito ridículo. Acho que devemos apelar pra... Isso! Sexo selvagem com o Angeli! Ah, assim, vai... Minham. Sem esturesse. Só o Angeli e eu numa cama, não, numa praia, não, numa o quê? Ok, só eu e o Angeli em um quartinho de hotel vagabundo no centro. Ele por cima, ele por baixo, ele em pé atrás de mim... ai, isso, ele em pé por trás falando bobagens... cacete, só mais um pouquinho, Angeli! Isso. Ah! Lindo, perfeito. Tenho de usar o Angeli mais vezes...

Nossa, e o Angeli é muito melhor amante do que aquele merda do Rui com aquele pau pequeno e aquele estranho gosto por minas perfeitas. Nossa, esse cara é muito chato! Ele tatua Pessoa pra esquecer o pau pequeno e ainda vem pra cima de mim achando que eu vou cair nessa? Apaputa! Quer saber, foda-se. E que ódio de gente perfeita. E que ódio de meninos cheirosos e inteligentes. Caras assim quebram o seu coração. Nada disso. Ele que fique com o seu cabelo moderninho, seu corpinho de horas na academia, seu pessoinha de quinta. Eu quero é o Angeli! Quero agora, quero de novo!
— Alô, Rui? Não vai dar pra sair com você hoje. Surgiu um compromisso. Ok, eu também sinto muito. Mas às vezes a vida prega peças na gente. Outra hora a gente sai. Agora eu preciso só resolver essa coisinha...

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